Quando tudo o que há nas premissas são factos acerca de nós próprios — as nossas regressões mentais, conexões, etc. — o raciocínio não pode só por si transportar nos para fora deste domínio. Quando operamos inteiramente a partir do domínio da subjectividade orientada para nós mesmos, então tudo o que podemos extrair com segurança daqui permanecerá subjectivo e sem acesso a uma ordem mundial objectivamente independente em si.
E assim Descartes rapidamente deu consigo encurralado num canto de onde só um apelo a Deus poderia possivelmente resgatá-lo. E os seus sucessores que — como a maior parte dos modernos — tinham relutância em pedir apoio filosófico a Deus, logo deram consigo a recorrer a expedientes problemáticos, como constituir gatos a partir de impressões de gatos. O estratagema cartesiano empurrou a filosofia moderna para a tarefa de construir uma realidade objectiva a partir de materiais subjectivos. E — nada surpreendentemente — isto revelou se impossível na prática. Aos olhos da posteridade, a viragem de Descartes para o interior do eu, aparentemente promissora, revelou-se um beco sem saída filosófico.
Arturo Pérez-Reverte, o escritor espanhol mais lido no mundo, acredita que a humanidade "já viveu a sua melhor época". À VISÃO, fala do seu novo livro, Homens Bons, e carrega no pessimismo: "O mundo é um sítio perigoso, cheio de filhos da puta"
A propósito de nada, ou só por estarmos ali, um português e um espanhol, no bar do Hotel Westin Palace, a dois passos do Prado, em Madrid, Arturo Pérez-Reverte, 64 anos, atira: “O maior erro de Espanha foi, no tempo de Filipe II, não ter decidido fazer de Lisboa a capital...” Está dado o mote para o tema das oportunidades perdidas, sempre adiadas promessas ibéricas. Homens Bons, quase a chegar às livrarias portuguesas, é também sobre isso. Lê-se como um romance de aventuras, com dois académicos espanhóis, no fim do século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa, a viajarem de Madrid a Paris com a missão de adquirirem os 28 volumes da revolucionária Encyclopédie, de Diderot e D’Alambert, para o acervo da Real Academia Espanhola, num país onde ainda pairava a sombra da Inquisição. O escritor, ex-jornalista de guerra, chama-lhe o livro mais positivo da sua já longa carreira literária. Homens Bons é atual, muito atual, para iluminar (mas pouco) tempos de barbárie.
Nos momentos deste romance em que fala como escritor com os seus leitores refere o tempo “em que era um leitor inocente, inclusivamente um romancista inocente”. Pode falar-nos dessa perda de inocência?
Todos temos um período de inocência... E tanto os livros que li, desde muito novo, como a vida, foram-me tirando inocências, tirando letras maiúsculas a algumas palavras. Mas, em troca, iam-me dando lucidez. Às vezes tenho nostalgia de quando acreditava em certas coisas. Aos 64 anos e com uma biografia como a minha, não é fácil acreditar em muito... Quando era um leitor apaixonado, de 14 ou 15 anos, acreditava em mil coisas: o amor, a lealdade, a pátria, a solidariedade humana, a aventura, o heroísmo... Depois vi a guerra de perto, conheci heróis verdadeiros, e a pouco e pouco a vida foi-me tirando inocências. Essa perda acabou por resultar em romances. Creio que todos os meus livros são um exercício prático dessa perda de inocência.
No seu discurso de entrada na Real Academia de Espanha, em 2003, definia-se como um “leitor que, acidentalmente, escreve romances”. Ainda se sente assim?
Sim. Claro que, depois de 20 romances, sou um escritor profissional... Mas creio que o que me mantém lúcido e vivo é continuar a ser um leitor. Há um perigo enorme para os escritores: aquele momento em que deixam de ser leitores para passarem a ser só escritores, em que já só leem em função do que escrevem, à procura de si próprios. Isso fecha-lhes o mundo. É necessário ter uma curiosidade saudável de leitor que continua a descobrir mundos... Ler livros novos, e reler livros com o olhar diferente que a vida nos deu, alimenta, enriquece, mantém-nos vivos e criativos. Há muitos escritores consagrados que só leem o que se refere à sua própria obra... Há autores que a partir de um certo momento já nos deram tudo – Balzac, Stendhal, Fitzgerald, Mann, Hemingway, que li com verdadeira paixão mas a certa altura esgotaram o que tinham para me dar... Mas há autores que podes continuar a ler e te dão sempre coisas novas. Acontece-me cada vez com menos, mas um deles, seguramente, é [Joseph] Conrad. Leio-o continuamente e dá-me, ainda, vontade de ser escritor. Motiva-me.
Quais foram as suas primeiras leituras?
Os meus avós, dos dois lados, tinham grandes bibliotecas. Eu lia da mesma maneira Conan Doyle, Jack London, Agatha Christie, Dostoievski, Tolstoi, Dumas, Balzac... Via a literatura como um todo. Nunca vi essa diferença entre literatura ligeira e divertida ou profunda e aborrecida. Para mim, era um grande conjunto. O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, ou A Montanha Mágica, de Thomas Mann, por exemplo, foram ambos importantes para mim, marcaram-me os dois intensamente, sem os hierarquizar.
Leu tudo isso como adolescente? Passava a vida a ler?
Era um jovem normal, gostava de sair com os amigos e com miúdas, mas andava sempre com livros para todo o lado... Cheguei aos 20 anos com tudo lido. Há três eixos em que se apoia a minha vida como leitor e escritor. Os clássicos gregos e latinos, a literatura do siglo de oro (Quevedo, Cervantes...) e a grande literatura do fim do século XIX e início do XX (Tolstoi, Dostoievski, Eça de Queirós, que também é fundamental: se não fosse de um autor português, acho que O Primo Basílio seria considerado um grande romance da literatura universal). Entre os 12 e os 20 li tudo isso. Quando chego ao mundo com uma mochila, quando viajo e vou para cenários de guerra como jornalista, levo todas essas leituras comigo. E quando chego a Beirute, vejo Troia; noutros lugares, encontro Ulisses; nos Balcãs, vejo o Tintin... Chego ao mundo cheio de referências que me permitem interpretá-lo. Estive em lugares e situações horríveis que, sem os livros, me teriam enlouquecido, me teriam perturbado muito mais... Os livros davam-me serenidade para analisar, capacidade de interpretar.
Levava livros consigo?
Sempre. Lembro-me de estar na Eritreia, em 1977, com uns 25 anos, numa das piores campanhas que fiz, e à noite, com uma vela, lia Plutarco. Isso acalmava-me, apesar do medo, da disenteria, de estar mal... Eu fui em direção ao mundo porque tinha lido. Queria ver com os meus olhos se havia uma Milady, um D'Artagnan, um Settembrini...
Qual foi mesmo o primeiro livro de todos?
Como leitor, do princípio ao fim, Os Três Mosqueteiros. Teria uns nove ou dez anos. Era um livro muito emblemático lá em casa, havia um exemplar que tinha pertencido a uma bisavó minha. E era normal fazermos, por brincadeira, uma espécie de Trivial Pursuit sobre pormenores do livro...
A chegada ao jornalismo foi um acaso ou um projeto pensado?
O jornalismo foi uma solução. Nos livros tinha aprendido que havia um mundo fascinante de viagens, aventuras, barcos, miúdas, amizade, violência... Eu era um miúdo de boas famílias, educado para ser um jovem responsável e transformar-me num arquiteto ou advogado. Mas queria ver, e viver, esse mundo de que me falavam os livros. Embarquei num petroleiro por uns tempos e, depois, achei que o jornalismo era uma boa desculpa para viajar e ver o mundo.
Já nessa altura tinha o desejo de ser escritor? Chegar à literatura como autor?
Nunca tinha pensado em escrever, nem sentia que tinha essa vocação... Eu queria viver. E consegui. África, Ásia, América nos anos 70, quando ainda nem havia sida... Estava demasiado ocupado a viver. Até que no regresso de uma viagem longa e dura decidi sentar-me para escrever. Mas não queria falar sobre mim, a minha vida. Então decidi escrever um romance histórico em que ao protagonista aconteciam, mais ou menos, as mesmas coisas que me tinham acontecido a mim, mas no tempo das invasões napoleónicas. Esse livro é O Hussardo (1986). Senti-me muito confortável a escrevê-lo, gostei de o fazer. Tinha vindo de África, com uma grave disenteria, e tinham-me dito que devia parar uns meses, para recuperar... Escrevi, também, para matar o tempo. Foi publicado, venderam-se alguns exemplares e segui para outra reportagem... Até que o meu terceiro romance, A Tábua de Flandres (1990), se tornou num best-seller em todo o mundo. Por essa altura estive na primeira Guerra do Golfo, mas esse livro mudou a minha vida: deu-me dinheiro, liberdade. Ainda fui repórter mais quatro anos...
Esse sucesso literário foi o momento simbólico da transformação de jornalista em escritor?
A questão é que eu já levava 20 anos como repórter, sobretudo de guerra, e começava a duvidar da minha profissão. Esse momento simbólico, pode-se dizer, aconteceu em Sarajevo. Passei três anos nos Balcãs... E vislumbrei o jornalismo que vinha aí, o mundo que vinha aí, os espectadores que vinham aí...
E ainda nem havia internet...
Pois não... Mas não gostei do que vi. De Madrid pediam-me para entrar em direto de Sarajevo e eu dizia “mas assim não posso ir para a frente, fazer reportagem, quando vou trabalhar?”. Respondiam, “não te preocupes com isso, tens que fazer cinco diretos para os noticiários, pode ser do hotel”. Noutro dia diziam-me: “Hoje não é preciso mandares nada porque é dia de futebol” e eu respondia “mas houve dez mortos num mercado!”. Comecei a desprezar o meu trabalho, os meus espectadores... os meus chefes. E aí pensei “tenho que deixar isto”. Já não acreditava no que fazia. Mortos e mais mortos para nada, não ia mudar nada... Não queria morrer também eu por algo em que já não acreditava. Escrevi o Território Comanche, uma espécie de livro de despedida, e abandonei o jornalismo. Se tivesse continuado, hoje seria um velho repórter bêbado, em bordéis de Hong Kong ou do México, cínico, descrente, a contar a minha vida a repórteres mais jovens... Conheci muitos velhos jornalistas desses. Não queria ser mais um como eles. A literatura salvou-me.
Sente que a experiência como jornalista lhe é muito útil como escritor?
Como romancista, nada. Quando numa reportagem se nota muito o romancista, é uma má reportagem. E quando num romance se nota muito o jornalista, é um mau romance. Mas há uma coisa que, sim, foi útil: o jornalismo deu-me a capacidade de obter e processar informação com rapidez. O jornalista é um caçador, e essa atitude vigilante, alerta e lúcida de observador, claro que me ajuda a lidar com documentação, factos, relatórios, personagens...
O novo livro do escritor espanhol
Neste romance, Homens Bons, porque decidiu intercalar fragmentos em que fala como escritor, sobre o próprio processo de escrita do livro?
É uma questão puramente técnica. Senti, neste romance, que havia um problema narrativo: o leitor atual não tem informação suficiente sobre o período do Iluminismo para compreender tudo. Se o próprio romance explicasse isso, obrigava-me a grandes digressões que distraíam da narrativa, quase enciclopédicas e didáticas. Então, decidi que, nessas partes, o narrador resumia alguma dessa informação, partes mais áridas ou aborrecidas.
Ao leitor, essas partes parecem de uma grande transparência, com o escritor a revelar-nos o seu trabalho...
Sim, mas não é nada disso. É pura ficção, também. Permite ao leitor descansar, abrir uma janela, permite-me explicar em cinco linhas o que custaria muito mais no fio da narrativa... Mas é tão mentira como o resto. Nada disso aconteceu. Para mim é bastante divertido misturar informações falsas e verdadeiras, amigos reais e inventados, livros reais e inventados... Lembro-me sempre que um amigo meu, o professor italiano Luciano Canfora, me ligou a dizer que estava farto de procurar um livro que eu citava no Clube Dumas e não conseguia encontrá-lo. “Nunca o encontrarás, porque não existe”, respondi. O Umberto Eco também fazia muito isso.
A génese deste romance foi mesmo esse momento em que, na Real Academia Espanhola, viu os 28 volumes da Encyclopédie?
Talvez... Mas a ideia já vinha de antes. No dia em que vi a Enciclopédia na Academia, parte do meu mundo polarizou-se em torno dela. É assim que os escritores funcionam... O motivo pode ser uma pessoa que passa, um biscoito, um sorriso. Neste caso, a minha visão fez-me pensar na questão ibérica, no peso histórico da religião que nos lixou a vida, a tragédia de ser espanhol – e português também... –, os maus governos, a incultura. E ali, no Iluminismo, houve uma possibilidade de as coisas serem melhores, parecia que podíamos ser diferentes.
No ambiente que antecede a Revolução Francesa, o deste livro, é fácil encontrar pontes com a atualidade. Também foi essa uma razão para o escrever?
O ser humano é o mesmo. A questão da cultura como solução mantém-se. É a única solução. Cultura no sentido de formação, educação, conhecimento. A diferença é que, na altura, sentia-se que ainda era possível mudar muito as coisas, e hoje já percebemos que não. Foi uma ocasião perdida. A condição humana impôs-se às ideias.
Essa oposição entre a fé na razão e os fanatismos, a irracionalidade, está bem visível nos nossos dias...
Sim, eu queria que o meu livro tivesse uma leitura atual. Na verdade, não faço romances históricos, gosto de pensar que são romances, situados num certo tempo, mas que ajudam a entender o presente. E senti que este livro podia ser útil. Posso escrever por prazer, por dinheiro, por muitas razões... Neste caso sentia-me útil. Espero que os leitores de Homens Bons passem a entender melhor o nosso tempo, vejam coisas que antes não viam... Queria ajudar. De certa maneira, é um livro solidário.
Somos hoje filhos, ou talvez netos, do Iluminismo...
A nossa parte boa, sim. A parte má vem das sombras, da barbárie, do medievo... A liberdade de falarmos, de nos vestirmos como queremos vem daí, desses homens. Devemo-lo às Luzes.
O filósofo alemão Jürgen Habermas dizia que a modernidade, que começou aí, é um projeto inacabado. Mas não sente que estamos numa espécie de beco sem saída?
A modernidade será sempre inacabada, nunca se cumprirá. É um caminho frustrado. Sou muito pessimista. Acho que já chegámos onde podíamos ter chegado e agora estamos em declínio. Creio que o ser humano já não alcançará o nível de liberdade, intelectualidade e cultura que alcançou a partir do fim do século XVIII e ao longo do século XIX. O caminho está fechado. E a memória faz, hoje, muita falta... Sem referências, sem História, não podes entender o presente. Em vez de construirmos sobre as nossas pegadas estamos a construir sobre... nada. Estamos desorientados. Mas tenho 65 anos, já não quero saber.
Não está fácil ser otimista...
Sim, acho que quem for lúcido e verdadeiramente culto só pode estar pessimista...
Mas situou o livro nesse exato momento em que a esperança no futuro da Humanidade era enorme...
Exato. Sinto que o mundo já viveu a sua melhor época, essa esperança que resultou na Revolução Francesa e foi até ao estalinismo. O comunismo e o socialismo ainda faziam parte dessa grande esperança no futuro... Até que a puta condição humana acabou por perverter tudo. Estaline é o fim de um sonho. Matou mais gente do que Hitler, mas o mau de Estaline não foi só ser um grande tirano: ele esmagou o sonho de mudança, com ele morreu a esperança de seres humanos que acreditavam que podiam construir um mundo melhor. Entre o fim do século XVIII e meados do século XX viveu-se o período mais luminoso. Que não vai voltar...
Nem daqui a vários séculos? Não pode ter um otimismo a longo prazo?
Não, não acredito. E agora vêm aí os bárbaros outra vez.
Muitos viram com surpresa como neste século XXI nos debatemos com a irracionalidade total e o obscurantismo, bem simbolizados no extremismo islâmico, no terrorismo...
A mim não me surpreendeu. Os bárbaros estão sempre aí... Quando lemos e estudamos História sabemos que há sempre bárbaros a caminho. Será que fomos tão idiotas ao ponto de acreditarmos que tudo isso tinha acabado? Esquecemo-nos? Agora vêm com a conversa do Islão, amanhã virão com outra conversa qualquer... A barbárie e a violência estão sempre aí. O problema, o grande erro, foi acreditarmos que esta espécie de Disneylândia onde vivemos era o mundo real. Eu sabia, outros sabiam, mas muita gente falava só de um mundo ideal, dos direitos humanos universais, de ser solidário...
Está a falar, também, de uma crise nos discursos sobre multiculturalidade e globalização...
Sim, claro. O mundo é um sítio perigoso, cheio de filhos da puta. O terrível é que o Ocidente e tudo o que custou tanto a construir ao longo dos séculos, liberdades e direitos, com os bons e nobres valores de que falam os protagonistas do meu romance, está a morrer, a desaparecer... E não voltará. Os jovens ignoram-no. Nem se ensina nas escolas...
Porquê?
É uma cultura de facilidade. Temos medo de traumatizar os meninos com a Ilíada, ou com a História... O objetivo principal passou a ser não haver insucesso escolar, e nivela-se tudo muito por baixo. Os sistemas de educação no mundo ocidental, hoje, são feitos para normalizar e desprezam os mais inteligentes. Não se valorizam nada as elites, a própria ideia de elite está mal vista, tem muito má imprensa... Veja-se a mediocridade na política espanhola, ou europeia, ou portuguesa. Onde está um Churchill, um Adenauer, um Kennedy? Logo na escola olha-se de lado para um indivíduo singular, brilhante, destacado. Torna-se suspeito e parece que é preciso igualizar todos. Mas nós não somos todos iguais!
Podemos estar a viver uma era parecida a esse período que antecedia a Revolução Francesa, quando muitos não a viam chegar?
Há uma grande diferença. Essa revolução, mesmo com toda a violência, era liderada por intelectuais, por gente que acreditava em ideias, num mundo melhor. Degolaram o rei e mataram o czar por causa de ideias. Agora a revolução anuncia-se vinda dos mais brutos, dos que mostram degolações no Twitter, de verdadeiras bestas sem nenhuma dimensão intelectual. Agora é o poder do rancor, da vingança, que dirige essas ações. Antes era uma violência que achavam necessária para melhorar o mundo, hoje é pura vingança contra o poder, o dinheiro, o patrão, as humilhações, algo que até se pode compreender... Mas não há ideologia. Vão arder bibliotecas, palácios, parlamentos. Isso é terrível. Mas eu já não vou estar cá para ver...
O que se passa hoje em Espanha, esta incapacidade de formar um governo a partir dos resultados das eleições, é uma consequência dessa crise do mundo ocidental de que fala?
Esta gentinha é o resultado de um mundo medíocre. Nem são culpados, são uma consequência deste mundo, desta Europa medíocre... É uma mediocridade enorme, já nem quero saber das notícias de atualidade política espanhola. Estou cansado. Tenho a minha biblioteca, que é o meu bunker, a minha trincheira, o meu refúgio. Ponho-me a ler Sócrates, Xenofonte, Montaigne, Plutarco... Como uma aspirina que tira as dores de cabeça.
“Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766”
Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida.
Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública.
[...] Em suma, o entendimento não deve aprender pensamentos mas a pensar. Deve ser conduzido, se assim nos quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar.
A natureza peculiar da própria filosofia exige um método de ensino assim. Mas visto que a filosofia é, estritamente falando, uma ocupação apenas para aqueles que já atingiram a maturidade, não é de espantar que se levantem dificuldades quando se tenta adaptá-la às capacidades menos exercitadas dos jovens. O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. [...] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: “Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê-lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos”. Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, [...] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de instrução próprio da filosofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade (de ζητειν). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só quando a razão já adquiriu mais prática, e apenas em algumas áreas, é que este método se torna dogmático, isto é, decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na verdade, contra ele. O que o aluno realmente procura é proficiência no método de reflectir e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo — isso terá de ser considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método.
(Tradução de Desidério Murcho)
Immanuel Kant
Texto retirado de “Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766” da colectânea de textos Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7.
O biólogo Rupert Sheldrake elaborou uma teoria designada Ressonância Mórfica. De acordo com esta teoria, sempre que um indivíduo de uma espécie aprende ou descobre um novo procedimento ou atitude, isso repercute-se no campo ordenador de toda a espécie. Se esse procedimento ou atitude for repetida por muito tempo, tal imporá uma ressonância mórfica que influenciará todos os indivíduos da mesma espécie. Vejamos o seguinte exemplo: quando o centésimo macaco adoptou a prática de lavar as raízes antes de as comer, os macacos isolados de uma ilha vizinha começaram a ter a mesma prática.
"A formulação de um problema é muitas vezes mais importante que a sua solução, a qual constitui apenas matéria de matemática ou de habilidade experimental. Propor novas questões, admitir novas possibilidades, encarar velhos problemas sob novos ângulos, isso requer imaginação criadora e assinala reais avanços na ciência"
“Se não sabemos em que consiste o conhecimento, talvez não saibamos qual das nossas opiniões é conhecimento. Um ponto de vista não é conhecimento apenas por ser opinião de alguém. Nem todas as opiniões pessoais profundas são conhecimento; e ser-se culturalmente respeitado não é garantia da opinião de alguém ser conhecimento. Nem uma opinião é conhecimento apenas porque queremos que seja ou porque acreditamos ou afirmamos que é. Nem todos os pontos de vista são especialmente conhecíveis. Que garantia temos de o nosso ponto de vista pessoal ser bom nesse aspecto?”
Stephen Hetherington, Realidade. Conhecimento. Filosofia. Uma introdução à metafísica e à epistemologia, Piaget, cap. IX, p. 135.
A recente proposta do ministro da Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, de envolver as instituições apoiadas pela FCT no acolhimento dos novos estudantes universitários, constitui mais uma etapa na sua luta, louvável e persistente, contra as praxes. Trata-se de não dar tréguas ao achincalhar da ideia de Escola iluminista, organizada em torno dos valores da autonomia individual e da cidadania democrática, perpetrado pelas praxes. Face a estas, o registo corrente de quase todos os diferentes atores da vida académica (docentes, discentes, pais e variadíssimas associações) é o de uma condenação declaratória, mas sem consequências. Como quem rejeita um mau odor, depressa dele se afastando. Parece-me um erro grave, pois as atuais praxes não constituem uma regressão às práticas "académicas" do Antigo Regime, não reproduzem os ritos de casta de uma sociedade estratificada em ordens e estamentos. As praxes de hoje preparam um futuro de "servidão voluntária". Elas estão em linha direta com a degradação do ambiente cultural e psicológico de muitas escolas secundárias, transformadas em lugares ruidosos, onde a "indisciplina" é um nome pobre para designar a lenta erosão das condições de possibilidade para um ensino que não seja uma tóxica caricatura. De Verney a Sérgio, constituiu-se um projeto de Escola como preparação para a Cidade. Para cada um aprender e defender os seus direitos e deveres, pois não existe cidadania sem o respeito pelo espaço de proteção e dignidade que deve existir entre cada ser humano e o seu semelhante. As praxes dobram as almas para um futuro de abuso, prepotência, ódio à inteligência, amálgama violenta de identidades temerosas. Não são um recuo. São uma antecipação dos novos tribalismos para onde, distraidamente, nos estamos a deixar empurrar.
Viriato Soromenho-Marques in Diário de Notícias, 7-9-2016
"[...] Os homens enganam-se quando se julgam livres, e esta opinião consiste apenas em que eles têm consciência das suas acções e são ignorantes das causas pelas quais são determinados. O que constitui, portanto, a ideia da sua liberdade é que eles não conhecem nenhuma causa das suas acções. Com efeito, quando dizem que as acções humanas dependem da vontade, dizem meras palavras das quais não têm nenhuma ideia."
Baruch de Espinosa, Ética, II, Prop. XXXV, Lisboa, Relógio d'Água, 1992
“Posto que o homem não
se pode explicar unicamente a partir do cérebro do sapiens, mas que este último é o resultado de um processo de
hominização muito longo e complexo, podia surgir a tentação de regressar à
base, isto é, aos pés do primata que desceu das árvores para caminhar no solo.
O hominídeo começa por
se distinguir do chimpanzé não pelo peso do cérebro, nem provavelmente pelas
suas aptidões intelectuais, mas sim pela locomoção bípede e pela postura
vertical. Daí em diante, a hominização não deixará de caminhar sobre os pés
[…]. A postura erecta é o elemento decisivo que vai libertar a mão de todas as
obrigações locomotoras. Não nos esqueçamos de erguer o polegar neste ponto: a
oponência do polegar, aumentado a força e a precisão da preensão, vai fazer da
mão um instrumento polivalente. De repente, o bipedismo abre a possibilidade da
evolução que conduz ao sapiens:a postura erecta liberta a mão, a mão
liberta o maxilar, a verticalização e a libertação do maxilar libertam a caixa
craniana das restrições mecânicas que anteriormente pesavam sobre ela, e esta
última torna-se capaz de se alargar, em benefício de um «locatário» mais amplo.
Mas um esquema destes
(correcção anatómica → desenvolvimento tecnológico → libertação craniana) não
poderia ser casual, nem linear. Só pode ser a resultante da intervenção de
agentes de toda a ordem, que vão entrar em interacção.
De facto, este esquema
pressupõe mutações genéticas, que realizam as transformações anatómicas e o
aumento do tamanho do cérebro; uma «selecção» do bipedismo por um meio natural
adequado, que já não é a floresta mas sim a savana; um novo tipo de vida que,
fazendo deste animal simultaneamente presa e predador, desenvolve uma
dialéctica pé-mão-cérebro, aptidões cerebrais que até então não tinham sido
sistematicamente exploradas pelo chimpanzé, acarreta a utilização de armas
defensivas e ofensivas e a construção de abrigos, iniciando, portanto, o
desenvolvimento técnico no seio de uma nova praxis […].
E, a partir de então,
serão as múltiplas inter-relações, interacções, interferências, entre os
factores genéticos, ecológicos, praxistas (a caça), cerebrais, sociais e depois
culturais que vão permitir conceber o processo multidimensional da hominização,
o qual vai finalmente levar ao aparecimento do homo sapiens.
Isto já nos indica que
a hominização não poderia ser concebida unicamente como uma evolução biológica,
nem como uma evolução espiritual, nem como uma evolução sociocultural, mas sim
como uma morfogénese complexa e multidimensional resultante de interferências
genéticas, ecológicas, cerebrais, sociais e culturais […].
Nós não privilegiaremos
o traço anatómico que faz que a hominização caminha somente com os pés; nem
privilegiaremos o traço psicológico que faz que a hominização caminha somente
com a cabeça; nem privilegiaremos o traço genético que faz que o hominídeo só salte
de mutante em mutante; nem privilegiaremos o traço ecológico que só faz avançar
a savana para o hominídeo e o hominídeo para a savana; nem privilegiaremos o
traço sociológico que só põe em movimento uma dinâmica social […]. Todos estes
traços são essenciais, mas são sobretudo, no que diz respeito a esta evolução,
essenciais uns aos outros.”
Edgar Morin (s/d), O Paradigma Perdido: A Natureza Humana,
Mem Martins, Publicações Europa-América, pp. 54-56.
“Que quimera é o homem?
Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio!
Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, cloaca de
incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem deslindará esta
embrulhada?”
“Todos sabemos que
somos animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos
hominídeos, do género homo, da
espécie sapiens, que o nosso corpo é
uma máquina com trinta biliões de células, controlada e procriada por um
sistema genético que se constituiu no decurso de uma longa evolução de 2 a 3
biliões de anos, que o cérebro com que nós pensamos, a boca com que falamos, a
mão com que escrevemos são órgãos biológicos, mas este conhecimento é tão
importante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído por
combinações de carbono, de hidrogénio, de oxigénio e de azoto.”
Edgar Morin (s/d), O Paradigma Perdido: A Natureza Humana, Mem Martins,
Publicações Europa-América, p. 15
A mãe não é a única figura de
protecção. Hoje considera-se que não existe uma predisposição biológica
específica de vinculação com a mãe biológica. Se nos animais inferiores o
comportamento maternal é determinado por mecanismos hormonais, nos animais
superiores as aprendizagens anteriores têm um papel importante na manifestação
de comportamentos adequados relativamente às crias, como o provam as
experiências de Harlow com primatas. Além disso, a injecção de prolactina na
hipófise de ratos machos, desencadeou neles comportamentos característicos nas
fêmeas.
No ser humano, conhecem-se alguns
processos hormonais que indicam algumas expressões do comportamento maternal. A
prolactina, segregada pela hipófise, estimula a produção de leite pelas
glândulas mamárias. A ocitocina, produzida pelo hipotálamo e libertada pela
hipófise, é responsável pelas contracções uterinas e pela libertação do leite.
O estrogénio e a progesterona são responsáveis pelo aumento das glândulas
mamárias e pela inibição, durante a gravidez, da libertação de prolactina.
Contudo, o comportamento maternal está marcado por factores sociais e
culturais.
O tema em análise está orientado
para dois tópicos intimamente ligados: a figura materna e as relações de
vinculação do bebé à mãe. Uma das questões que gera alguma controvérsia é o
facto de entender o conceito de mãe numa perspectiva biológica, a designada mãe
biológica, com a qual o bebé estabelece uma vinculação também ela com
características biológicas. Estudos entretanto desenvolvidos mostram que o bebé
estabelece laços de vinculação com a pessoa mais próxima e permanente que cuida
preferencialmente dele, que responde de forma mais adequada às suas
necessidades.
Se bem que algumas competências
exigidas a uma mãe para criar e educar uma criança se relacionem com a
biologia, a maior parte delas são desenvolvidas por aprendizagem no seio social.
Portanto, em termos psicoafectivos, mãe é todo e qualquer adulto significativo
que dispõe de tempo para dedicar à criança, proporcionando-lhe experiências
positivas e estimulantes e dispensando-lhe atenção e afecto. Há agentes
maternantes, como as mães de substituição, o pai, outros familiares e outros
elementos sociais que desempenham esse papel, funcionando como figuras de
vinculação.
Quanto à relação entre vinculação
e desenvolvimento social e emocional, pode dizer-se que a vinculação dos bebés,
tanto humanos como primatas, em relação às mães pode ser vivida de modo
gratificante, ou penoso. Experiências com primatas e observações de seres
humanos levaram ao estabelecimento de uma relação directa entre o
desenvolvimento social e emocional e a vinculação, designadamente a nível sexual
e maternal. A relação mãe-filho deve estar baseada em sentimentos geradores de
confiança, para que os bebés se sintam aptos a estabelecer novos e benéficos
contactos sociais.
Quem precisa de filósofos que pensem se à nossa volta se multiplicam "pensadores"e "opinantes", que oferecem a sua sabedoria a um ritmo vertiginoso? Como serão os líderes e decisores do amanhã que estão a crescer com o telemóvel debaixo da almofada? Das grandes empresas, como a Google, às universidades, como Harvard, há notícias animadoras: a filosofia está de volta, bem como as humanidades em geral depois de anos em que tudo o que contava era tecnologia e matemática. Temos mesmo de voltar a aprender a pensar na era da técnica.
Na década de 80 do século passado, a poderosa AT&T sofria uma enorme crise de identidade que poderia ter dado cabo da sua reputação e levado o seu fundador, Alexander Graham Bell, o inventor do telégrafo falante, vulgo, telefone, a dar muitas voltas na tumba. Como seria de esperar, e perante as dúvidas sobre o seu futuro, a empresa voltar-se-ia para os consultores de gestão – espécime em franca expansão à época – na tentativa de obter a resposta que poderia ditar o seu futuro: entrar ou não entrar no mercado emergente dos telefones celulares.
Utilizando os habituais modelos preditivos matemáticos, os consultores chegariam à conclusão que os telefones móveis serviriam apenas um nicho de mercado e não um em que valesse a pena investir tempo e recursos. Assim, e tal como tinha acontecido com a Digital Equipment Corporation nos anos 60 que, erradamente, tinha também previsto que nunca existiria uma forte procura por computadores pessoais, a AT&T faria um enorme erro de cálculo no que respeita a uma das mais importantes inovações tecnológicas e comerciais dos nossos tempos.
Ao confiar exclusivamente na gloriosa exatidão das ciências matemáticas – indispensáveis, sem dúvida, para a construção de um telefone – a gigantesca empresa de telecomunicações esquecer-se-ia do mais fundamental: o que significaria realmente ter um telefone móvel e por que motivo alguém daria dinheiro para o adquirir.
Esta história é contada por Ryan Seltzer, ex-consultor de gestão, que deixou o negócio da consultoria num banco em Boston (antes trabalhara na Casa Branca) - para fundar uma empresa de filosofia – a Strategy of Mind – que ajuda agora muitas outras congéneres a responder e a resolver alguns dos mais complexos desafios de gestão, nomeadamente aqueles que começam com a mais básica das questões: o "como".
Serve esta introdução para falar da importância da filosofia – ou, mais especificamente, da sua aparente inutilidade – nos tempos que correm, muito graças à crescente obsessão pelas ciências exatas – nomeadamente as que cabem no famoso acrónimo STEM – para ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas ou "aquilo que está a dar", mas não só.
Sim, é certo que a relevância social das denominadas ciências humanas – sim, pasme-se, também são ciências – deambula perdida nas ruas da amargura, que o seu lugar institucional é mais do que desvalorizado e a sua função pedagógica crescentemente posta em causa. Sobre esta crise que paira sobre todas as áreas do saber que não prestam vassalagem à exatidão, escreve Manuel J. do Carmo Ferreira, Professor Catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa (aposentado),na revista Gaudium Sciendi, da Universidade Católica Portuguesa: "irrelevância como saber, ineficácia como intervenção, desfasamento em relação aos avanços em outras áreas do conhecimento, são os traços maiores de uma prolongada crise de legitimação das Humanidades, a que se vem juntar a insegurança dos que as cultivam quanto à natureza e títulos de afirmação do seu campo disciplinar".
Mas se a prosa sobre a crise das humanidades daria pano para muitas mangas, centremo-nos apenas na Filosofia, cujo lugar na sociedade contemporânea sofre de uma enorme ambiguidade: se, por um lado, existe um desinvestimento claro no seu ensino e aplicação – quem quer trocar um filho proficiente em tecnologia por um que se perca nessa coisa que não serve para nada chamada filosofia? – por outro, e em particular no mundo dos negócios, a filosofia parece estar a transformar-se num mantra repetido por muitos no sentido de que pode ajudar ao tão almejado sucesso, aquela palavrinha que todos usamos sem nunca pensarmos no seu verdadeiro significado.
Apesar de, na maioria das vezes, não aparecer em estado "puro", mas antes transvestida em modas que acabam por ser efémeras, um tonzinho filosófico fica sempre bem, principalmente na poderosa indústria da liderança, que à falta de novas ideias, vai embarcando na onda do coaching, seguida pela vaga do mindfulness – que vai de vento em popa, a propósito – e de outras que tais, "perfeitas" para se lidar com a também chamada era da complexidade e nela triunfar, é claro.
Ora, se é complexo, é filosófico e mesmo que se atropelem definições, conceitos e práticas, se juntem alhos com bugalhos, retirados de receitas milenares chinesas, com pozinhos pós-modernos de inteligência emocional, temperados ainda - e porque as especiarias, seja qual for a sua origem, aguçam o espírito - com umas técnicas de relaxação indianas – a filosofia parece estar, em muitos casos, a ser usada como uma espécie de cozinha de fusão. E que vende, a propósito.
Mas e por outro lado, esta antiga senhora faz lembrar também aquelas tias velhas e chatas que somos obrigados a convidar para as grandes celebrações: tem um lugar à mesa, mas ninguém lhe dá a devida atenção ou, pior ainda, colocamo-la no lugar mais afastado do centro, para que não sejamos contagiados com o cheiro a bafio que dela emana.
Existe ainda uma terceira opção: a tia é velha e chata, mas também é rica e, enquanto herdeiros, podemos sempre descobrir um camafeu, feio, mas valioso, guardado num velho baú que, devidamente vestido com novas roupagens, poderá valer uma boa maquia num qualquer novo mercado zen, devidamente comercializado por um bom leadership coach e ser tema de workshops moderníssimos que tão bem ficam nos nossos currículos.
Tudo isto é mais plausível de acontecer do que manifestarmos a convicção de que o mundo não precisa apenas de tecnologias, algoritmos, folhas de excel, estatísticas e afins, mas também de pessoas que saibam pensar de forma crítica, que façam as perguntas certas, que questionem o que não parece passível de ser questionado e que arrisquem em novas teorias e formas de compreender esta época que, tal como todas as outras, não deixa de ter "food for thought", muito antes pelo contrário.
Basta pensarmos em três ou quatro questões bem "modernas" e podemos logo começar pela que dá o mote a este texto. Têm as humanidades um lugar legítimo num mundo em que a ciência e a tecnologia parecem reinar? Será que a inteligência artificial irá comprometer a nossa moralidade? E se a neurociência vier a colocar em causa o nosso livre arbítrio? Deverão as evidências das alterações climáticas alterar a forma como vivemos? Habituar-nos-emos a viver em clima de medo face ao fundamentalismo crescente? Será possível que o extremismo de direita, em franco crescimento na Europa, possa dar origem a um novo holocausto? Deixaremos de raciocinar num mundo em que existem apps que dizem o que devemos comer, o que devemos vestir, quantas horas devemos dormir e por aí adiante?
Convencermo-nos desta aparente lógica da batata não é, de todo, fácil. Para que serve a epistemologia, a ética ou a filosofia moral, a filosofia política ou a ontologia, senão como palavrões que nem merece a pena googlar? E qual a importância de termos tempo para pensar e questionar, quando vivemos, em continuum, rodeados de tecnologias que nos satisfazem os desejos mais imediatos, nos dão o poder do conhecimento total, que nunca nos deixam sozinhos com os nossos botões e que não nos permitem ter tempos de ociosidade, a pré-condição que iria dar origem aos primeiros pensamentos filosóficos? E, mais ainda: se a filosofia, enquanto disciplina ou prática, deveria responder às inúmeras novas e complexas questões que se colocam à sociedade contemporânea, não foi o seu lugar usurpado pelos incontáveis "opinantes", "comentadores" e "cronistas", em conjunto com os milhares de milhões de pessoas que passam a vida a dissecar a nossa realidade e a emitir juízos sobre ela? Serve a filosofia para alguma coisa no século XXI?
Em muitas nações ditas desenvolvidas a ideia vigente é que não se deve apostar ou investir nesta que já foi considerada como "o saber mais abrangente". Mas também existem alguns ventos contrários que pretendem desencalhar este velho "amor pelo saber". E que estão a empurrar, ainda que lentamente, o universo académico, por um lado, e o da liderança, empresarial mas não só, por outro.
Para quê usar a cabeça se temos computadores?
Em 2014, e já no rescaldo da crise financeira de 2008, o presidente da Irlanda, Michael Higgins, lançou a "Iniciativa de Ética" com o objetivo de desenvolver, a nível nacional, um debate sobre os principais valores que deveriam reger a sociedade irlandesa na altura. A ideia, várias vezes repetida em discursos presidenciais, era a de que se o povo realmente prezava a democracia, deveria evoluir para uma cidadania de pensamento independente e ativo, sendo que recuperar a importância do ensino da filosofia nas escolas constituiria um dos mais preciosos meios para atingir esse fim. Para Higgins e numa interpretação mais ou menos livre das suas ideias, a filosofia seria o mais importante antídoto contra o pensamento de grupo, encarneirado, e o melhor ingrediente para colocar um fim no enjoativo consenso que há muito estava a limitar o livre pensamento.
Um ano antes, e logo ali ao lado, o Reino Unido iniciaria um estudo comparado, em 48 escolas do 1º ciclo, com a duração de um ano, no qual 1500 crianças entre os 6 e os 10 anos receberiam aulas de filosofia e outras 1500 não. O estudo, conduzido pela Education Endowment Foundation (EEF), uma organização sem fins lucrativos que visa estreitar o fosso entre os rendimentos familiares (baixos) e o aproveitamento escolar, pretendia testar a eficácia das premissas filosóficas através de um "ensaio clínico aleatório", exatamente como os que são feitos com os fármacos com potencial de comercialização. Assim, 22 escolas funcionaram como grupo de controlo, enquanto as restantes 26 passaram a ter uma aula de filosofia por semana com a duração de quarenta minutos, no que é denominado como P4C (Philosophy for Children) No total, mais de 3 mil miúdos estiveram envolvidos na experiência e os resultados foram bem além do esperado.
O programa, da responsabilidade da Society for the Advancement of Philosofical Enquiry and Refletion (SAPERE), não tem como objetivo concentrar-se no estudo de textos de Platão ou Kant mas, através da leitura de histórias, poemas ou pequenas notícias da imprensa, ou ainda através da visualização de pequenos filmes, estimular as discussões sobre matérias "potencialmente"filosóficas. O objetivo é ajudar as crianças a raciocinar, a formular e a fazer questões, envolvê-las em debates construtivos e apoiá-las no desenvolvimento de argumentos.
O "material" pode ser tão díspar quanto a leitura de uma história sobre um miúdo que queria manter uma baleia de estimação na sua banheira ou simplesmente lançar-se uma pergunta, em particular no grupo dos mais velhos (entre os 8 e os 10 anos) que tenha o tal potencial filosófico: "por que motivo os tenistas homens recebem maiores patrocínios do que as suas congéneres femininas?", "é legítimo privar alguém da sua liberdade?" ou "se pudesses, mandarias acabar com o livre pensamento?", entre outras inúmeras possibilidades, não esquecendo as mais "óbvias" como "O que é ser humano?", "se tivesses outro nome, serias uma pessoa diferente?", "qual a diferença entre dizer uma mentira ou manter um segredo?", "temos de estar tristes às vezes para podermos estar felizes noutras?", entre uma panóplia alargada de outras tantas.
Os resultados? Não só bons, como inesperados. O mais surpreendente foi o facto de todos os miúdos que participaram nesta iniciação filosófica terem melhorado o seu aproveitamento escolar na matemática e na leitura, tendo em conta que o objetivo inicial nada tinha a ver com melhorias na literacia ou na aritmética. Em média, estes progressos corresponderam ao equivalente a dois meses extra de ensino e foram as crianças provenientes dos agregados mais pobres as que um passo maior deram na sua performance: as suas competências de leitura "avançaram" quatro meses, as de matemática três e as de escrita dois.
Também e no geral, todas as crianças participantes demonstraram uma maior confiança para falar em público, melhoraram as suas competências de saber escutar os outros (pares e professores), demonstraram uma paciência muito mais significativa face aos colegas e apresentaram uma melhoria generalizada na sua autoestima. Novas formas de pensamento e raciocínio lógico, em conjunto com uma melhoria significativa nas suas formas de expressão, ordenação de ideias e capacidade de argumentação foram também claramente atingidas.
Adicionalmente, estes efeitos benéficos da filosofia duraram dois anos, com o grupo intervencionado a continuar a ter melhores resultados muito tempo depois de as aulas terem terminado, daí que a avaliação finaltenha sido apenas publicada em Junho de 2015. O programa foi entretanto adotado por inúmeras escolas em todo Reino Unido, sendo que existem atualmente mais de 3 mil professores formados em P4C e 60 mil crianças a usufruírem deste tipo de experiência. A metodologia utilizada pela SAPERE foi desenvolvida há 35 anos pelo professor norte-americano Matthew Lippman, em New Jersey, e é utilizada, em formatos similares, em mais de 60 países.
No fundo, e no que aos mais novos diz respeito e a não ser que haja um cataclismo que desligue a internet, filosofar será cada vez mais difícil. Os alertas multiplicam-se e não é preciso ser-se tecnofóbico para perceber que não é fácil pensar, imaginar ou questionar quando temos o mundo inteiro literalmente na mão e ao nosso dispor ininterruptamente. Quem imagina um adolescente a trocar likes, tweets, instagrams e similares por uma meia hora de silêncio ou de interiorização? Ou o ciberespaço por um espaço físico para pensar? Ou até um chatpor uma conversa numa mesa de café, expressando, por exemplo, a tristeza que sente sem se limitar a utilizar uma mera "carinha" triste?
Salvo honrosas exceções, a verdade é que cada menos se troca a cuidadosa e morosa gestão do reflexo que se quer partilhar com o mundo, por momentos de autorreflexão. Sabido também é que esta inexistência de espaço e de tempo para se pensar não afeta, como sabemos, só as novas gerações. Em passo mais do que acelerado, tudo o que acontece no mundo é vertiginosamente comentado, opinado, e, é claro, partilhado por cerca de 3,5 mil milhões de pessoas – ou 40% da população mundial que tem acesso à internet. E, destes, um ou dois mil milhões consideram-se, certamente, como filósofos. Se opinam e comentam, logo existem. E assim, para que raio servem os filósofos?
Obsoleta e inútil, a quem interessa a filosofia?
Apesar de, em muitos casos, a filosofia parecer ter sido arrumada numa gaveta poucas vezes aberta, em 2010, oThe New York Times resolveu tirá-la do armário académico onde vivia encafuada e partilhou-a com o resto do mundo: apesar de classificada como uma mera coluna de opinião, o espaço The Stone – definido como um fórum para filósofos contemporâneos e outros pensadores, tem vindo a atrair milhões de leitores interessados em questões tão contemporâneas como intemporais.
Tópicos universais como os mistérios da consciência ou da moralidade, são misturados com questões da atualidade tão díspares quanto a ética na utilização de drones, o controle de armas, as desigualdades de género, a crise dos refugiados, ou seja, com as questões sociais, culturais ou políticas do nosso tempo, naquilo que parece ser uma receita de sucesso que, afinal, até "dá likes" e partilhas.
E foi tão grande o êxito deste "espaço para pensadores" que a coluna semanal deu origem ao livro, publicado em janeiro deste ano, The Stone Reader: Modern Philosophy in 133 Arguments , o qual, de acordo com os seus editores, coloca uma significativa parte do total do discurso da filosofia moderna ao dispor dos leitores. O livro é dividido em quatro grandes secções – Filosofia, Ciência, Religião e Moralidade, e Sociedade e a sua introdução começa da seguinte forma: "O que é um filósofo? E, mais importante do que isso, quem é que realmente se importa com isso?".
Num tom bem-humorado, Peter Capatano, editor do NYTimes e responsável pela edição dos ensaios publicados na The Stone, explica que a primeira pergunta - o que é um filósofo? – foi, exatamente, o tema do ensaio de lançamento da dita coluna em 2010. E qual não foi o seu espanto, e dos ensaístas que para ela iriam contribuir na altura, quando se aperceberam que o artigo tinha sido o mais lido de todos na edição online do jornal nesse dia.
Nesta mesma introdução, Capatano não se esquece de sublinhar a ideia de que a filosofia é considerada como supérflua e obsoleta por um conjunto substancial de pessoas, numa espécie de movimento "anti-intelectuais" que vigora nos quatro cantos do mundo, e muito em particular nos Estados Unidos. Mas rejeita liminarmente a ideia – dando como exemplo o sucesso da coluna em causa – de que a filosofia seja inútil, não tendo medo de responder à segunda questão formulada: "há muita gente que se importa, sem dúvida", escreve. E é esta "muita gente" que poderá ajudar a ressuscitar o valor que a disciplina teve ao longo de grande parte da história da Humanidade.
De Harvard aos "cursos que obrigam a pensar" para CEOs
Essa ressurreição está também a ganhar raízes nos templos do saber da atualidade. Vejamos o exemplo da mais americana das universidades, onde os alunos chegam com planos de carreira bem definidos, na sua maior parte assentes em racionalidades inabaláveis, mas onde uma cadeira denominada Teoria Política e Ética Chinesa Clássica reúne o maior número de alunos inscritos, só suplantada pelas de "Princípios de Economia" e "Introdução às Ciências Computacionais" (aqui tinha mesmo de ser, mas mesmo assim não é nada mau ocupar o 3ª lugar do pódio).
Sim, estamos a falar de Harvard e de como um professor, Michael Puett, foi obrigado a mudar de anfiteatro – para o maior do famoso campus universitário – para poder albergar todos os alunos que, em particular desde 2007 (o 2º ano em que cadeira foi ministrada), procuram resolutamente a sua aula. A disciplina – que tem como base a relevância dos textos clássicos chineses para a atualidade – deu origem ao livro The Path: What Chinese Philosophers Can Teach Us About the Good Life, lançado no passado mês de Abril e já comprado por editoras em 25 países, incluindo a própria China, onde vai ser publicado ainda este ano.
O segredo de Puett parece residir na introdução de ingredientes frescos numa receita antiga. O professor pede aos alunos que leiam os textos originais de Confúcio, como o famoso Analectos, também conhecido como Diálogos de Confúcio ou o Mencius, da autoria do filósofo chinês com o mesmo nome (julga-se) ou ainda o Dao de Jing, comummente traduzido como" O Livro do Caminho e da Virtude" (uma das mais conhecidas e importantes obras da literatura chinesa), confrontando-os depois com questões similares – mas "modernas" – que seguramente devem ter dado cabo da cabeça dos eruditos chineses há vários séculos.
Mas não só. De seguida, Puett sugere aos seus alunos que ponham em prática, nas suas próprias vidas, os ensinamentos apreendidos, sendo que os que predominam são, na verdade, ideias simples que não perdem, de todo, atualidade. De acordo com as palavras do próprio Puett, e numa entrevista que deu, em 2013, à revista The Atlantic, o professor afirma que, face há 20 anos – quando começou a dar aulas – os alunos da atualidade sentem-se "esmagados" por um caminho específico que têm de percorrer no sentido de objetivos de carreira muito concretos, sendo que estes, na maioria das vezes, resultam de imposições externas (seja da pressão dos pais, por exemplo, ou mesmo da sociedade que predetermina que cursos é que "estão a dar").
O que Puett observa é que, cada vez mais, os estudantes orientam todo o seu percurso escolar, e até as suas atividades extracurriculares, de acordo com planos e objetivos de carreira predefinidos e "demasiado" programados. Assim, são muitos os estudantes que juram que ao perceberem que o coração e a mente, maioritariamente separados na visão do mundo ocidental, estão profundamente relacionados entre si e que não podem ser encarados isoladamente – uma das principais "lições" que Puett tenta transmitir nas suas aulas – contribuiu mesmo para mudar as suas vidas, existindo até alguns que – sim, parece loucura, mas é verdade – que trocaram as tais ciências exatas e o que está a dar por cursos em áreas das obsoletas humanidades. Será está a prova da famosa citação que é atribuída a Confúcio e que reza "escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida"?
Harvard não é a única universidade que está a descobrir as delícias da filosofia aplicada a outras áreas do conhecimento. Outras famosas universidades estão a ir pelo mesmo caminho e o mesmo acontece, em particular, com as escolas de negócios. E é aqui que entra, mais uma vez, o fator negócio, mas um que pelo menos ajuda a desenvolver neurónios e a transformar a gestão em mais do que uma obsessão pelos resultados que figuram nos seus relatórios trimestrais. Retomando a história que deu início a este texto, o fundador da empresa de filosofia Strategy of Mind, Ryan Seltzer, assegura que são cada vez mais as empresas que estão a (re)conhecer a prosperidade de outras suas congéneres que estão a apostar em doses similares de "matemática e filosofia". Claro que o ex-consultor poderia estar apenas a vender os seus serviços, mas abundam os exemplos de várias organizações que comprovam a sua teoria (e o seu modelo de negócio).
Damon Horowitz é um dos casos mais clássicos quando se fala destas estranhas decisões em que executivos bem-sucedidos e, muitas vezes, provenientes exatamente de empresas de tecnologia, decidem experimentar os caminhos incertos da filosofia. E a verdade é que o reconhecido empreendedor resolveu abandonar o seu principescamente pago lugar no mundo tecnológico para tirar um doutoramento em filosofia (a sua formação académica anterior incluía uma um mestrado tirado no MIT Media Lab e estudos em ciências da computação em Stanford, onde agora dá aulas de… filosofia).
O atual diretor de engenharia e filósofo in-house (este cargo não é inventado, existe mesmo) da Google proferiu uma interessante talk em Stanford, em 2011, intitulada "Por que motivo deve trocar o seu emprego na área da tecnologia e matricular-se num doutoramento em Humanidades", a qual explora o valor das humanidades – no geral, e da filosofia no particular – num mundo que está continuamente a ser inundado por novas tecnologias. O seu caso está longe de ser único e, em particular, nas grandes empresas em que a tecnologia e a inovação constituem os principais ativos.
O que pode ser facilmente explicado por Fareed Zakaria, um colunista do The Washington Post e autor de In Defense of a Liberal Education. Como escreve, "uma educação alargada ajuda a estimular o pensamento crítico e a criatividade e a exposição a uma variabilidade de áreas produz não só boas sinergias, como uma útil "fertilização cruzada"". Afirmando que tanto a ciência como a tecnologia constituem componentes cruciais no mundo empresarial, o jornalista confere, contudo, exatamente o mesmo valor ao Inglês e à Filosofia, e recorda que num dos inesquecíveis discursos de Steve Jobs, o fundador da empresa da maçã explicava que "está no ADN da Apple o facto de a tecnologia nunca ser suficiente – mas, ao invés, ser o seu casamento com as artes liberais e com as humanidades que produz os resultados que fazem cantar os nossos corações".
No mesmo livro, Zakaria defende ainda que a inovação não é, de todo, uma mera questão técnica, "mas antes a forma de compreender como funcionam as pessoas e a sociedade, o que precisam e o que desejam", algo que, na verdade, esteve também sempre presente na Apple, cujo enorme sucesso em muito se deveu, entre várias outras coisas, à brilhante antecipação dos desejos dos seus clientes.
Mark Zuckerberg é outro exemplo de como a tecnologia precisa, indiscutivelmente, do saber produzido pelas ciências não exatas. O fundador do Facebook foi, também, um estudante clássico das artes liberais e simultaneamente um apaixonado pelos computadores. A antiguidade grega sempre foi um dos seus principais interesses e a psicologia a área que escolheu para se licenciar. E não é preciso ser-se muito inteligentes para perceber o quão ligadas estão as inovações do Facebook ao campo da psicologia. E é o próprio Zuckerberg queafirma que o Facebook "tem tanto de tecnologia como tem de psicologia e sociologia".
Zakaria cita também um outro estudo sobre o futuro do trabalho, desenvolvido por dois académicos de Oxford e que concluiu que para os trabalhadores evitarem a "computorização" dos seus empregos, terão de adquirir, cada vez mais, competências sociais e criativas". Para o autor, o que este exemplo significa verdadeiramente é que, e sem retirar valor às ciências exatas e ao inevitável trabalho com as máquinas (que é, sem dúvida, o futuro do trabalho), as mais valiosas competências serão aquelas "unicamente humanas" ou as que os computadores nunca conseguirão imitar (pelo menos assim se espera).
Mas e de volta à filosofia e ao valor do "tempo para pensar", um artigo publicado na revista The Economist ajuda a melhorar a perspetiva no que a esta necessidade no mundo dos negócios diz respeito. Intitulado Philosopher kings: Business leaders would benefit from studying great writers, defende a criação de "retiros para pensar" em substituição das inúmeras modas a que os CEOs vão aderindo, sempre com o objetivo de melhorar as suas capacidades de gestão e liderança (desde as "provas" em ambientes hostis, aos passeios em plena natureza e já contando com os cursos de mindfulness, que o artigo refere como "bons para relaxar, mas maus porque esvaziam a mente").
No mesmo artigo fica expressa a ideia de que é surpreendente o número de CEOs bem-sucedidos que estudaram filosofia, de que é exemplo Reid Hoffman, um dos fundadores do LinkedIn, que optou também por tirar uma pós-graduação em filosofia em Oxford ou o já falado Horowitz, mas também de como Bill Gates, enquanto geria a Microsoft, tinha por hábito isolar-se uma semana no campo para "meditar sobre um assunto importante" ou de como Jack Welch, enquanto CEO da General Electric, reservava religiosamente uma hora do seu dia para pensar, sem recurso a qualquer tipo de distração.
Adicionalmente, Peter Thiel, um reconhecido investidor de Silicon Valley apostou recentemente também em conferências para as quais são convidados pensadores de renome numa tentativa de "melhorar o mundo" e David Brendel, filósofo e psiquiatra, é um dos "gurus" mais procurados por estes executivos de topo para prestar aconselhamento sobre liderança, para além de escrever assiduamente na Harvard Business Review sobre como a filosofia pode ajudar a se ser não só um melhor gestor, como um melhor líder. Curioso – ou não – é também o facto de Brendel ser igualmente um dos co-fundadores da Strategy of Mind acima mencionada.
Como afirma também o filósofo in-house da Google, "os líderes do pensamento da nossa indústria não são aqueles que subiram, passo a passo, mas de forma monótona, a escada da carreira, mas os que correram riscos e desenvolverem perspetivas únicas".
Ou seja, aqueles que se deram ao trabalho de pensar, questionar e criar.